*Leandro Karnal
"O demônio está em crise. Seu império se esfacela. Foi preciso o cardeal Ratzinger,o papa Bento XVI,afirmar:o Diabo existe!Tristes tempos nos quais Satã depende da defesa de um membro da cúria pontifícia!
Que decadência! Por séculos esteve por trás de todas as desgraças. Foi retratado segurando a pena de Lutero tradutor ou amparando a ambição de Leão X. Seu apogeu esteve em Loudun,na França.Freiras ursulinas,padres jesuítas,autoridades locais,o próprio cardeal Richelieu: Toda nação francesa parecia fantoche do sorriso luciferino. A possessão coletiva nos conventos do século XVII foi teatral e impactante.
Mas ele nasceu mais humilde. No Antigo Testamento,Satã era auxiliar do plano divino. Atingiu o paciente Jó sob a permissão do Altíssimo. Mais tarde cresceu com o cristianismo. Foi o primeiro a reconhecer o Messias. Anunciou-se a Cristo como Legião. Virou deus nas heresias maniqueístas da nascente igreja. A Idade Média traçava um caminho promissor.
No início do Renascimento ele tinha atingido uma importância ímpar.Tornou-se unanimidade dos cristãos.Luteranos,calvinistas e católicos estavam convencidos de seu poder.O Catecismo de Trento cita-o mais que o próprio Deus. Os seguidores de Satã,bruxas em especial,foram temidos em surtos histéricos.Em Roma,Genebra ou Salem seu poder era imenso. O demônio tornara-se internacional...
No século XVII começa a decadência. Por quê? Em parte inicia-se uma laicização do mundo,estudada por Keith Thomas no seu 'Religião e declínio da magia'. O universo teológico e mágico vai cedendo lugar a causas materiais. Crescem formas de evitar o infortúnio. Aumenta a confiança no indivíduo, e na força de vontade diante do destino. O mundo se desencanta.
Parte da crise demoníaca é subproduto da crise de Deus. Incenso e enxofre perdem força juntos. Intelectuais do século XVIII preferem Voltaire e Locke ao 'Malleus maleficarum'. No XIX,médicos passaram a acreditar em micróbios. No XX,psicanalistas explicam sintomas que eram atribuídos a possessões. O mundo de Newton e Freud tinha pouco espaço para Deus ou sua corte inversa. Era a segunda queda de Satã.
Que declínio estrondoso! No século XIV,Satã agitava suas asas poderosas no inferno;no século XX,vira psicose e alucinação. Pior,no mundo contemporâneo, enfrenta escalas de mal inéditas,e as concorrências dos ditadores e genocídios. No cinema,ele vomita vitamina de abacate,mais nojento - e inofensivo - que nunca. Os homens não precisam mais dele. Para Nietzsche,Deus morreu. Para Sartre,o inferno são os outros. Com Deus agonizante e um inferno isolado no interior de cada homem,Satanás parecia morto.
O Diabo não morreu.Parece ter morrido o grande mal cósmico,o arquiteto do desespero. Nos canais religiosos ele brilha como exorcismos constantes. Não é mais o grande inimigo de Deus,mas a origem dos pequenos danos da vida: A bebida,o adultério. Tornou-se justificativa para isentar nossas escolhas. O inferno dantesco faliu com a concorrência.Abriram-se franquias em cada alma. Para sobreviver,Satanás passou do atacado ao varejo. Afinal,ele não é o rei da astúcia?"
Que decadência! Por séculos esteve por trás de todas as desgraças. Foi retratado segurando a pena de Lutero tradutor ou amparando a ambição de Leão X. Seu apogeu esteve em Loudun,na França.Freiras ursulinas,padres jesuítas,autoridades locais,o próprio cardeal Richelieu: Toda nação francesa parecia fantoche do sorriso luciferino. A possessão coletiva nos conventos do século XVII foi teatral e impactante.
Mas ele nasceu mais humilde. No Antigo Testamento,Satã era auxiliar do plano divino. Atingiu o paciente Jó sob a permissão do Altíssimo. Mais tarde cresceu com o cristianismo. Foi o primeiro a reconhecer o Messias. Anunciou-se a Cristo como Legião. Virou deus nas heresias maniqueístas da nascente igreja. A Idade Média traçava um caminho promissor.
No início do Renascimento ele tinha atingido uma importância ímpar.Tornou-se unanimidade dos cristãos.Luteranos,calvinistas e católicos estavam convencidos de seu poder.O Catecismo de Trento cita-o mais que o próprio Deus. Os seguidores de Satã,bruxas em especial,foram temidos em surtos histéricos.Em Roma,Genebra ou Salem seu poder era imenso. O demônio tornara-se internacional...
No século XVII começa a decadência. Por quê? Em parte inicia-se uma laicização do mundo,estudada por Keith Thomas no seu 'Religião e declínio da magia'. O universo teológico e mágico vai cedendo lugar a causas materiais. Crescem formas de evitar o infortúnio. Aumenta a confiança no indivíduo, e na força de vontade diante do destino. O mundo se desencanta.
Parte da crise demoníaca é subproduto da crise de Deus. Incenso e enxofre perdem força juntos. Intelectuais do século XVIII preferem Voltaire e Locke ao 'Malleus maleficarum'. No XIX,médicos passaram a acreditar em micróbios. No XX,psicanalistas explicam sintomas que eram atribuídos a possessões. O mundo de Newton e Freud tinha pouco espaço para Deus ou sua corte inversa. Era a segunda queda de Satã.
Que declínio estrondoso! No século XIV,Satã agitava suas asas poderosas no inferno;no século XX,vira psicose e alucinação. Pior,no mundo contemporâneo, enfrenta escalas de mal inéditas,e as concorrências dos ditadores e genocídios. No cinema,ele vomita vitamina de abacate,mais nojento - e inofensivo - que nunca. Os homens não precisam mais dele. Para Nietzsche,Deus morreu. Para Sartre,o inferno são os outros. Com Deus agonizante e um inferno isolado no interior de cada homem,Satanás parecia morto.
O Diabo não morreu.Parece ter morrido o grande mal cósmico,o arquiteto do desespero. Nos canais religiosos ele brilha como exorcismos constantes. Não é mais o grande inimigo de Deus,mas a origem dos pequenos danos da vida: A bebida,o adultério. Tornou-se justificativa para isentar nossas escolhas. O inferno dantesco faliu com a concorrência.Abriram-se franquias em cada alma. Para sobreviver,Satanás passou do atacado ao varejo. Afinal,ele não é o rei da astúcia?"
*Leandro Karnal é formado em História pela Unisinos/RS,com doutorado pela USP/SP e chefe do departamento de História da Unicamp/SP
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