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terça-feira, 29 de setembro de 2015
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
Grandes e pequenos demônios
*Leandro Karnal
"O demônio está em crise. Seu império se esfacela. Foi preciso o cardeal Ratzinger,o papa Bento XVI,afirmar:o Diabo existe!Tristes tempos nos quais Satã depende da defesa de um membro da cúria pontifícia!
Que decadência! Por séculos esteve por trás de todas as desgraças. Foi retratado segurando a pena de Lutero tradutor ou amparando a ambição de Leão X. Seu apogeu esteve em Loudun,na França.Freiras ursulinas,padres jesuítas,autoridades locais,o próprio cardeal Richelieu: Toda nação francesa parecia fantoche do sorriso luciferino. A possessão coletiva nos conventos do século XVII foi teatral e impactante.
Mas ele nasceu mais humilde. No Antigo Testamento,Satã era auxiliar do plano divino. Atingiu o paciente Jó sob a permissão do Altíssimo. Mais tarde cresceu com o cristianismo. Foi o primeiro a reconhecer o Messias. Anunciou-se a Cristo como Legião. Virou deus nas heresias maniqueístas da nascente igreja. A Idade Média traçava um caminho promissor.
No início do Renascimento ele tinha atingido uma importância ímpar.Tornou-se unanimidade dos cristãos.Luteranos,calvinistas e católicos estavam convencidos de seu poder.O Catecismo de Trento cita-o mais que o próprio Deus. Os seguidores de Satã,bruxas em especial,foram temidos em surtos histéricos.Em Roma,Genebra ou Salem seu poder era imenso. O demônio tornara-se internacional...
No século XVII começa a decadência. Por quê? Em parte inicia-se uma laicização do mundo,estudada por Keith Thomas no seu 'Religião e declínio da magia'. O universo teológico e mágico vai cedendo lugar a causas materiais. Crescem formas de evitar o infortúnio. Aumenta a confiança no indivíduo, e na força de vontade diante do destino. O mundo se desencanta.
Parte da crise demoníaca é subproduto da crise de Deus. Incenso e enxofre perdem força juntos. Intelectuais do século XVIII preferem Voltaire e Locke ao 'Malleus maleficarum'. No XIX,médicos passaram a acreditar em micróbios. No XX,psicanalistas explicam sintomas que eram atribuídos a possessões. O mundo de Newton e Freud tinha pouco espaço para Deus ou sua corte inversa. Era a segunda queda de Satã.
Que declínio estrondoso! No século XIV,Satã agitava suas asas poderosas no inferno;no século XX,vira psicose e alucinação. Pior,no mundo contemporâneo, enfrenta escalas de mal inéditas,e as concorrências dos ditadores e genocídios. No cinema,ele vomita vitamina de abacate,mais nojento - e inofensivo - que nunca. Os homens não precisam mais dele. Para Nietzsche,Deus morreu. Para Sartre,o inferno são os outros. Com Deus agonizante e um inferno isolado no interior de cada homem,Satanás parecia morto.
O Diabo não morreu.Parece ter morrido o grande mal cósmico,o arquiteto do desespero. Nos canais religiosos ele brilha como exorcismos constantes. Não é mais o grande inimigo de Deus,mas a origem dos pequenos danos da vida: A bebida,o adultério. Tornou-se justificativa para isentar nossas escolhas. O inferno dantesco faliu com a concorrência.Abriram-se franquias em cada alma. Para sobreviver,Satanás passou do atacado ao varejo. Afinal,ele não é o rei da astúcia?"
Que decadência! Por séculos esteve por trás de todas as desgraças. Foi retratado segurando a pena de Lutero tradutor ou amparando a ambição de Leão X. Seu apogeu esteve em Loudun,na França.Freiras ursulinas,padres jesuítas,autoridades locais,o próprio cardeal Richelieu: Toda nação francesa parecia fantoche do sorriso luciferino. A possessão coletiva nos conventos do século XVII foi teatral e impactante.
Mas ele nasceu mais humilde. No Antigo Testamento,Satã era auxiliar do plano divino. Atingiu o paciente Jó sob a permissão do Altíssimo. Mais tarde cresceu com o cristianismo. Foi o primeiro a reconhecer o Messias. Anunciou-se a Cristo como Legião. Virou deus nas heresias maniqueístas da nascente igreja. A Idade Média traçava um caminho promissor.
No início do Renascimento ele tinha atingido uma importância ímpar.Tornou-se unanimidade dos cristãos.Luteranos,calvinistas e católicos estavam convencidos de seu poder.O Catecismo de Trento cita-o mais que o próprio Deus. Os seguidores de Satã,bruxas em especial,foram temidos em surtos histéricos.Em Roma,Genebra ou Salem seu poder era imenso. O demônio tornara-se internacional...
No século XVII começa a decadência. Por quê? Em parte inicia-se uma laicização do mundo,estudada por Keith Thomas no seu 'Religião e declínio da magia'. O universo teológico e mágico vai cedendo lugar a causas materiais. Crescem formas de evitar o infortúnio. Aumenta a confiança no indivíduo, e na força de vontade diante do destino. O mundo se desencanta.
Parte da crise demoníaca é subproduto da crise de Deus. Incenso e enxofre perdem força juntos. Intelectuais do século XVIII preferem Voltaire e Locke ao 'Malleus maleficarum'. No XIX,médicos passaram a acreditar em micróbios. No XX,psicanalistas explicam sintomas que eram atribuídos a possessões. O mundo de Newton e Freud tinha pouco espaço para Deus ou sua corte inversa. Era a segunda queda de Satã.
Que declínio estrondoso! No século XIV,Satã agitava suas asas poderosas no inferno;no século XX,vira psicose e alucinação. Pior,no mundo contemporâneo, enfrenta escalas de mal inéditas,e as concorrências dos ditadores e genocídios. No cinema,ele vomita vitamina de abacate,mais nojento - e inofensivo - que nunca. Os homens não precisam mais dele. Para Nietzsche,Deus morreu. Para Sartre,o inferno são os outros. Com Deus agonizante e um inferno isolado no interior de cada homem,Satanás parecia morto.
O Diabo não morreu.Parece ter morrido o grande mal cósmico,o arquiteto do desespero. Nos canais religiosos ele brilha como exorcismos constantes. Não é mais o grande inimigo de Deus,mas a origem dos pequenos danos da vida: A bebida,o adultério. Tornou-se justificativa para isentar nossas escolhas. O inferno dantesco faliu com a concorrência.Abriram-se franquias em cada alma. Para sobreviver,Satanás passou do atacado ao varejo. Afinal,ele não é o rei da astúcia?"
*Leandro Karnal é formado em História pela Unisinos/RS,com doutorado pela USP/SP e chefe do departamento de História da Unicamp/SP
segunda-feira, 14 de setembro de 2015
As pessoas gostam de dizer “não temos terremotos, não temos furações, não temos tufões”. E as pessoas mais cínicas dizem “já temos os políticos! Deus não quis aumentar o número de desgraças que o país teria, e se deu ao Japão tufões e terremotos, a nós deu o senado e a Câmara dos Deputados”.
– Leandro Karnal
O racista furioso aquele que coloca o lençol da esposa e vai para o ku klux klan, aquele que mata pessoas é uma exceção felizmente, são loucos excepcionais. O absolutamente democrático também é uma exceção. A maioria das pessoas são aquelas que não gostam do racista furioso, mas sorriem diante de uma piada sobre nordestino, negro ou gay.
No fundo esse silêncio é a concordância da maioria de que aquele indivíduo é um “perturbado”. Deveríamos redarguir, contra-atacar e demonstrar que isso é um absurdo, mas fazemos o jogo para ser amado e sorrimos daquela piada infame e preconceituosa, como são sempre quase todas as piadas.
– Leandro Karnal
Na minha experiência como professor, as salas de aulas são divididas em grupos incomunicáveis e mutuamente hostis, que se agrupam por renda, forma física, melanina e opção sexual. Não se falam, não se gostam riem quando um entra e debocham um dos outros.
Eis que um professor da nota baixa e se torna um inimigo de todos, imediatamente as panelas de pressão rompem o lacre e todos dão as mãos contra aquela besta do apocalipse que os prejudicou; um emenda a fala do outro, porque agora eles tem o que odiar em comum. E tendo alguém para odiar em comum nós somos todos irmãos.
É muito difícil amar em comum, nós tentamos, nos esforçamos, agora odiar é uma facilidade.
– Leandro Karnal
Quando eu sou fechado no trânsito por um homem eu me irrito com aquele motorista. Quando eu sou fechado por uma mulher…, os motoristas homens e curiosamente algumas mulheres dizem “tinha que ser uma mulher”.
No nosso preconceito misógino, o erro de uma mulher compromete todas, as mulheres são uma categoria, e as categorias são a primeira base do preconceituoso: os negros, os gays, os índios… Quando eu não tenho preconceito não falo de categoria, falo do indivíduo.
– Leandro Karnal
O fundamentalismo é um princípio presente em todas as religiões, não é um princípio específico de uma religião. Há fundamentalistas hindus, há fundamentalistas judeus, há fundamentalistas católicos, há fundamentalistas islâmicos e budistas também. Há fundamentalistas sikhis e xintoístas, há fundamentalistas em todas as expressões religiosas. Talvez uma evidência do gênero humano é a absoluta democracia de como a imbecilidade foi distribuída pela humanidade. Ou seja nenhum grupo, nenhuma etnia, nenhuma classe social, nenhum período histórico foi mais ou menos imbecil do que outro, matou mais ou menos. Quando temos meios técnicos matamos mais, quando temos menos meios técnicos matamos menos.
– Leandro Karnal
A Argentina para sair do seu problema grave, estrutural e econômico resolveu aplicar a receita liberal mais radical que nós temos notícia na América Latina. Privatizou tudo que fosse possível de ser vendido! Disse aos aposentados, aos jubilados “a gente se vê por aí”. Acabaram com a aposentadoria de todo mundo, encerraram contas, demitiram funcionários públicos, venderam estradas, empresas petrolíferas, tudo! E a Argentina foi ainda mais para o fundo do buraco. E o que disseram os liberais, da escola de Chicago diante da crise? “Mais privatização, mais cortes sociais”. Isso é um fundamentalismo do tipo liberal!
Os fundamentalistas são contrários a pluralidade de opinião. Negam qualquer realidade, e o mundo pode ser destruído desde que suas ideias sejam implementadas. Eles não raciocinam, não pensam mais no mundo real, não aceitam alteridade, só há um caminho para o sucesso, esse caminho é o caminho para o liberalismo.
– Leandro Karnal
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